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Política ·

O que a esquerda e as criptomoedas têm em comum?

Da autonomia econômica ao cooperativismo digital, existem pontos de encontro entre tradições do pensamento progressista e tecnologias descentralizadas. Essas aproximações, porém, não eliminam divergências sobre propriedade, distribuição de riqueza e o papel do Estado. Compreendê-las exige olhar para além dos preços do Bitcoin e das disputas ideológicas que passaram a dominar o debate.

Por Redação Esquerda Cripto · 19 min de leitura

Colagem: um grande triângulo vermelho com uma escada que sobe até uma árvore, entre uma multidão com bandeiras, um coração anatômico, um globo com a América do Sul, circuitos e chaminés de fábrica; embaixo, uma mão aberta.
Colagem: um grande triângulo vermelho com uma escada que sobe até uma árvore, entre uma multidão com bandeiras, um coração anatômico, um globo com a América do Sul, circuitos e chaminés de fábrica; embaixo, uma mão aberta.

Há uma curiosidade na maneira como as criptomoedas passaram a ocupar o imaginário político contemporâneo. Uma tecnologia concebida para permitir a transferência de valor sem depender de uma autoridade central tornou-se, em muitos ambientes, quase um símbolo de identidade liberal ou libertária. Para parte da esquerda, a associação foi suficiente para produzir distanciamento. Para alguns de seus defensores, a própria ideia de aproximar Bitcoin e pensamento progressista parece contraditória.

Mas as tecnologias não surgem com todas as suas consequências sociais previamente determinadas.

A eletricidade não nasceu progressista ou conservadora. A internet tampouco. Ambas foram incorporadas a projetos econômicos e políticos diferentes, produzindo possibilidades de emancipação, novas dependências e formas de concentração de poder.

Com as tecnologias descentralizadas, a questão merece tratamento semelhante.

É preciso reconhecer que o Bitcoin possui características monetárias específicas, que blockchain designa uma família de arquiteturas tecnológicas e que a chamada Web3 reúne projetos com modelos econômicos e estruturas de governança bastante distintos.

Colocar tudo sob uma mesma definição política seria tão impreciso quanto considerar que todas as empresas da internet compartilham uma única concepção de sociedade.

Ainda assim, existem pontos de contato relevantes entre certas possibilidades dessas tecnologias e preocupações históricas da esquerda.

Eles aparecem na defesa da autonomia, na organização coletiva, na crítica à concentração de poder, na circulação do conhecimento e na busca por formas mais democráticas de participação econômica.

Essas convergências não constituem uma identidade ideológica. São possibilidades que precisam ser examinadas em suas condições concretas.

Talvez o primeiro passo seja abandonar a pergunta sobre a quem pertencem as criptomoedas e investigar quais relações econômicas elas podem modificar.

A descentralização e a velha questão do poder

Uma das preocupações recorrentes das tradições socialistas, democráticas e progressistas é a concentração de poder econômico.

Essa preocupação atravessa debates sobre propriedade dos meios de produção, monopólios, organização do trabalho e capacidade das grandes instituições de influenciar decisões coletivas.

A descentralização tecnológica também parte de uma questão relacionada à distribuição de poder, embora frequentemente apresente respostas muito diferentes.

No Bitcoin, por exemplo, a validação das transações depende de regras compartilhadas por participantes de uma rede, em vez de uma autoridade responsável por manter um registro central de todas as operações.

Esse modelo introduziu uma forma particular de coordenação tecnológica.

Mas a ausência de uma autoridade central sobre o protocolo não significa ausência de concentração econômica.

Grandes participantes podem controlar parcelas expressivas dos ativos existentes. Empresas podem concentrar serviços de custódia e intermediação. A infraestrutura de mineração pode apresentar dependências geográficas, energéticas e empresariais.

A descentralização de uma função não implica a descentralização de todas as demais.

Essa distinção é fundamental para aproximar a discussão tecnológica das preocupações da esquerda.

A pergunta progressista não deveria se limitar à existência de uma rede aberta. Precisa alcançar as condições reais de participação.

Quem consegue utilizar essa infraestrutura? Quem possui os recursos necessários para influenciar seu desenvolvimento? Quem captura os benefícios econômicos? Quais dependências permanecem?

Uma rede pode reduzir a necessidade de intermediários e, simultaneamente, permitir o surgimento de novos centros de poder.

Isso não invalida suas possibilidades. Apenas demonstra que a distribuição do poder econômico não pode ser deduzida exclusivamente de sua arquitetura técnica.

Para a esquerda, esse é um campo de investigação particularmente relevante, porque aproxima o estudo da tecnologia de uma questão antiga: a diferença entre liberdade formal e capacidade material de exercer essa liberdade.

Uma pessoa pode ter autorização técnica para participar de uma rede pública e, ainda assim, enfrentar obstáculos econômicos, educacionais ou tecnológicos que dificultam sua participação efetiva.

A existência de uma porta aberta não significa que todos tenham condições de atravessá-la.

Cooperativismo: uma história anterior à blockchain

Muito antes da criação do Bitcoin, trabalhadores e comunidades já experimentavam formas de organização econômica baseadas em propriedade compartilhada, participação democrática e distribuição coletiva de resultados.

O cooperativismo moderno consolidou princípios que continuam reconhecidos internacionalmente, entre eles adesão voluntária, controle democrático pelos membros, participação econômica e autonomia organizacional.

Esses princípios não dependem de blockchain.

Sua importância está justamente em demonstrar que a organização coletiva possui uma história social e institucional muito anterior às tecnologias digitais.

A Aliança Cooperativa Internacional estabelece, entre os princípios das cooperativas primárias, a igualdade de voto entre seus integrantes, independentemente da quantidade de capital que cada pessoa possua.

Esse aspecto produz uma diferença importante em relação a muitas organizações autônomas descentralizadas, conhecidas como DAOs.

Uma DAO pode utilizar contratos inteligentes para registrar propostas, organizar votações e executar determinadas decisões. Entretanto, quando o poder de voto depende da quantidade de tokens controlados, participantes com maior patrimônio podem exercer influência proporcionalmente superior.

Nesse caso, a organização é descentralizada em certos aspectos tecnológicos, mas não necessariamente democrática segundo os princípios do cooperativismo.

É precisamente nessa diferença que surge uma possibilidade de aproximação.

Uma organização cooperativa poderia estudar ferramentas de blockchain para registrar decisões, administrar recursos compartilhados ou aumentar a auditabilidade de determinados processos.

Mas o modelo de governança precisaria preservar seus princípios próprios.

A tecnologia seria um instrumento a serviço da organização, não uma substituta de sua finalidade social.

Imagine uma cooperativa formada por produtores de uma comunidade rural.

Seus integrantes poderiam utilizar um sistema digital compartilhado para registrar determinadas etapas da comercialização, acompanhar receitas coletivas e verificar a execução de decisões aprovadas em assembleia.

Em algumas circunstâncias, uma infraestrutura distribuída poderia ser útil, especialmente quando diferentes organizações precisam compartilhar registros sem depender integralmente de um único operador.

Em outras, um banco de dados convencional seria mais barato, simples e adequado.

A escolha deveria resultar de uma avaliação técnica e econômica, não do entusiasmo com uma palavra que se tornou popular no mercado.

O ponto de convergência, portanto, não está na afirmação de que uma DAO é uma cooperativa moderna.

Está na possibilidade de utilizar ferramentas digitais para apoiar formas de organização econômica que já possuem objetivos coletivos.

A experiência histórica do cooperativismo oferece critérios para avaliar a governança das novas organizações digitais, enquanto algumas tecnologias podem ampliar as ferramentas disponíveis às cooperativas.

Essa relação merece pesquisa, experimentação e acompanhamento.

Autonomia financeira e inclusão: promessas que precisam ser examinadas

A autonomia econômica ocupa lugares diferentes nas tradições políticas da esquerda.

Em algumas correntes, aparece associada à independência material dos trabalhadores. Em outras, à democratização do crédito, à proteção contra relações abusivas ou à construção de instituições financeiras orientadas pelo interesse coletivo.

No universo das criptomoedas, a autonomia costuma ser apresentada pela possibilidade de controlar diretamente ativos digitais.

A autocustódia permite que uma pessoa mantenha as chaves necessárias para movimentar determinados recursos sem depender de uma instituição custodiante.

Essa característica pode ser importante em contextos específicos.

Mas é necessário evitar uma conclusão precipitada: possuir uma carteira digital não significa estar financeiramente incluído.

A inclusão financeira envolve acesso, segurança, conhecimento, custos adequados, proteção contra fraudes e capacidade efetiva de utilizar serviços econômicos.

Uma pessoa que não compreende o funcionamento das chaves privadas pode perder seus recursos de maneira irreversível. Alguém que enfrenta dificuldades de acesso à internet pode não conseguir utilizar serviços digitais com regularidade.

Também existem riscos associados à volatilidade dos ativos, às plataformas utilizadas e à qualidade das informações disponíveis.

A tecnologia, isoladamente, não resolve essas dificuldades.

Ainda assim, determinados instrumentos digitais podem ampliar alternativas de movimentação de recursos.

O custo das remessas internacionais oferece um exemplo concreto.

Segundo o Banco Mundial, o custo médio global de envio de remessas permaneceu em 6,36% no terceiro trimestre de 2025.

Para trabalhadores migrantes que enviam parte de seus rendimentos às famílias, esses custos representam uma redução direta dos recursos disponíveis para alimentação, moradia e outras necessidades.

Redes de pagamento baseadas em criptoativos e stablecoins podem ser investigadas como alternativas em determinados corredores internacionais.

Mas a comparação precisa considerar todos os custos envolvidos: aquisição dos ativos, taxas de rede, conversão cambial, retirada em moeda local e eventuais riscos operacionais.

Uma transferência aparentemente barata na blockchain pode se tornar cara quando o destinatário precisa converter os recursos para utilizá-los.

Além disso, sistemas convencionais de pagamento instantâneo também podem reduzir custos e ampliar o acesso.

O objetivo social relevante não é substituir necessariamente uma infraestrutura por outra.

É permitir que pessoas movimentem seus recursos com segurança, eficiência e custos proporcionais.

A convergência com preocupações progressistas aparece quando a inovação é examinada a partir das necessidades concretas dos usuários, especialmente daqueles que possuem menos alternativas.

A redução de custos financeiros pode ter importância social. Sua efetividade, entretanto, precisa ser demonstrada.

Conhecimento aberto e bens comuns digitais

Outra aproximação relevante aparece no desenvolvimento de software livre e de código aberto.

Parte importante da infraestrutura de redes como Bitcoin e Ethereum utiliza programas cujo código pode ser examinado publicamente.

Isso permite que pesquisadores, desenvolvedores e outros participantes estudem regras, identifiquem problemas e proponham modificações.

A abertura do código não garante que todas as pessoas consigam compreendê-lo. Também não elimina diferenças de influência entre participantes.

Mas cria possibilidades de fiscalização e colaboração que não estão disponíveis da mesma maneira em sistemas integralmente proprietários.

A relação com os bens comuns merece atenção.

A economista e cientista política Elinor Ostrom, laureada com o Prêmio Nobel de Ciências Econômicas em 2009, dedicou parte importante de sua obra ao estudo de comunidades capazes de administrar recursos compartilhados por meio de regras coletivamente construídas.

Seus estudos demonstraram que a gestão de recursos comuns não precisa estar necessariamente restrita à privatização integral ou ao controle centralizado pelo Estado.

Isso não significa que Ostrom tenha defendido blockchain ou antecipado as características das criptomoedas.

Sua contribuição está na compreensão de que instituições coletivas podem desenvolver mecanismos próprios de governança, monitoramento e resolução de conflitos.

Essa perspectiva oferece instrumentos úteis para examinar comunidades digitais.

Projetos de software aberto dependem de manutenção, financiamento, coordenação e decisões sobre mudanças técnicas.

Mesmo quando o código é público, alguém precisa realizar o trabalho necessário para mantê-lo funcionando.

Quem financia esse trabalho? Como as prioridades são estabelecidas? Como os participantes resolvem divergências? Quem possui influência sobre decisões importantes?

São questões institucionais, não apenas computacionais.

A ideia de bens comuns digitais também permite discutir formas de financiamento de infraestruturas que beneficiam muitas pessoas, mas não oferecem necessariamente retorno financeiro direto a investidores.

Protocolos abertos, bibliotecas de software, ferramentas de segurança e materiais educacionais podem produzir benefícios coletivos.

Mecanismos de financiamento comunitário, doações e fundos de desenvolvimento podem contribuir para sua manutenção.

Algumas aplicações de blockchain permitem registrar e executar regras de distribuição de recursos, embora isso não torne automaticamente esses mecanismos justos ou eficientes.

O interesse está em compreender como diferentes instrumentos podem apoiar a produção e a preservação de conhecimentos compartilhados.

Há uma afinidade possível com tradições políticas que valorizam educação, cooperação e acesso público ao conhecimento.

Mas essa afinidade depende de instituições capazes de transformar abertura técnica em participação efetiva.

Transparência, participação e responsabilidade

A possibilidade de consultar registros públicos de determinadas blockchains frequentemente é apresentada como uma garantia de transparência.

Em redes públicas, transações podem ser verificadas por qualquer pessoa com acesso às ferramentas adequadas.

Essa característica pode contribuir para a auditabilidade de operações.

Mas transparência tecnológica não deve ser confundida com transparência institucional.

Um registro pode demonstrar que determinado endereço transferiu recursos para outro, sem revelar necessariamente a identidade dos responsáveis, a finalidade econômica da operação ou sua conformidade com obrigações legais.

Também não garante que os dados inseridos em um sistema correspondam à realidade.

Uma informação falsa continua falsa quando registrada de maneira imutável.

Por isso, aplicações relacionadas à gestão de recursos coletivos precisam combinar instrumentos tecnológicos com mecanismos de responsabilização, verificação e controle social.

Em determinadas circunstâncias, contratos inteligentes podem ajudar a executar regras previamente aprovadas.

Uma organização poderia estabelecer, por exemplo, que recursos de um fundo coletivo só fossem movimentados depois de uma deliberação registrada e da autorização de responsáveis definidos.

Entretanto, a qualidade democrática dessa estrutura dependeria de quem participa das decisões, de como as propostas são apresentadas e das possibilidades de contestação.

O código pode executar uma regra. Não determina, por si, se ela é legítima.

Essa distinção também é relevante para políticas públicas.

O uso de blockchain em registros governamentais ou na execução de determinados procedimentos não representa automaticamente melhoria da transparência.

Em alguns casos, sistemas públicos convencionais, acompanhados de auditorias independentes e mecanismos de acesso à informação, podem cumprir a mesma função com menor custo.

Em outros, a necessidade de compartilhar registros entre diferentes instituições pode justificar o estudo de arquiteturas distribuídas.

A decisão exige critérios técnicos e avaliação de interesse público.

Para a esquerda, a convergência possível está na preocupação com a responsabilidade das instituições e a participação dos cidadãos.

A tecnologia pode oferecer instrumentos adicionais. A democracia continua dependendo de pessoas, direitos e instituições.

A questão ambiental não pode ser ignorada

A relação entre criptomoedas e sustentabilidade apresenta uma das divergências mais importantes desse debate.

O Bitcoin utiliza um mecanismo de consenso conhecido como prova de trabalho, que depende de atividade computacional e consumo de energia.

Esse consumo possui consequências ambientais que variam conforme a origem da eletricidade, a localização das operações e as características das infraestruturas utilizadas.

Outras redes empregam mecanismos diferentes, como a prova de participação, com perfis energéticos distintos.

Portanto, não é adequado tratar todas as criptomoedas como se possuíssem o mesmo impacto ambiental.

Também seria inadequado ignorar o consumo energético de determinadas redes ou considerar que qualquer utilização de fontes renováveis elimina automaticamente seus efeitos sobre sistemas elétricos e comunidades.

A avaliação ambiental precisa incluir consumo de energia, emissões, equipamentos, resíduos eletrônicos e possíveis impactos locais.

Em regiões com desigualdades no acesso à infraestrutura energética, a discussão ganha uma dimensão distributiva.

Quem se beneficia economicamente da atividade? Quais custos recaem sobre a comunidade? Existem efeitos sobre tarifas, disponibilidade de energia ou utilização de recursos naturais?

Essas perguntas fazem parte de uma análise socialmente responsável.

A preocupação ambiental, presente em diferentes correntes da esquerda e do movimento ecologista, não precisa resultar em rejeição indiscriminada de todas as tecnologias blockchain.

Pode contribuir para estabelecer critérios mais exigentes de avaliação.

A inovação não deveria ser considerada desejável apenas por ser tecnicamente possível.

Seus benefícios precisam ser examinados em relação aos recursos que consome e aos efeitos que produz.

Onde as convergências encontram seus limites

Seria intelectualmente desonesto reunir apenas características das criptomoedas que parecem próximas de valores progressistas e ignorar as tensões mais profundas.

O Bitcoin, por exemplo, possui uma política monetária programada, com emissão limitada segundo regras de seu protocolo.

Essa característica é valorizada por correntes que defendem restrições à discricionariedade monetária.

Mas diferentes tradições econômicas da esquerda atribuem ao Estado e às autoridades monetárias funções importantes na estabilização da economia, no financiamento de políticas públicas e na resposta a crises.

A existência de um ativo com oferta limitada não resolve essas divergências.

Da mesma maneira, a valorização da propriedade individual de ativos digitais pode entrar em tensão com projetos que priorizam mecanismos coletivos de distribuição de recursos.

Não existe uma compatibilidade automática entre escassez monetária e justiça social.

Também não há garantia de que a valorização de criptoativos beneficie proporcionalmente pessoas de menor renda.

Quando ativos são adquiridos em quantidades muito diferentes, aumentos de preço podem ampliar desigualdades patrimoniais entre seus detentores.

A concentração inicial e a distribuição posterior dos ativos precisam ser consideradas.

As finanças descentralizadas apresentam outras questões.

Protocolos de empréstimos, negociação e fornecimento de liquidez podem operar por meio de contratos inteligentes, reduzindo determinadas funções de intermediação.

Entretanto, esses sistemas podem envolver alavancagem, liquidações automáticas, riscos de programação, dependência de oráculos e incentivos especulativos.

A automação não elimina a necessidade de proteção dos usuários.

Uma liquidação executada corretamente por um contrato inteligente pode produzir consequências financeiras graves para alguém que não compreendeu os riscos assumidos.

Também existem desafios relacionados à responsabilização quando ocorrem falhas.

A ausência de uma empresa custodiante tradicional pode dificultar a identificação de quem possui obrigações perante os usuários.

Esses problemas precisam integrar qualquer análise séria sobre o setor.

As convergências entre esquerda e cripto não exigem negar tais contradições.

Exigem reconhecer que tecnologias podem apresentar características úteis para determinados objetivos e, simultaneamente, produzir riscos incompatíveis com outros.

A avaliação precisa ser feita caso a caso.

Por que essa conversa importa para a esquerda

Existe uma razão para tratar essa discussão com cuidado e alguma sensibilidade.

Muitas pessoas que se identificam com a esquerda construíram suas convicções a partir de experiências concretas de desigualdade, dificuldades econômicas e defesa de direitos.

Para elas, o debate sobre dinheiro não é uma abstração.

Está relacionado à capacidade de sustentar uma família, trabalhar com dignidade, acessar serviços públicos e construir alguma segurança material.

Quando as criptomoedas aparecem associadas exclusivamente à especulação financeira, ao enriquecimento individual ou à rejeição das instituições públicas, é compreensível que despertem resistência.

Essa reação não deveria ser ridicularizada.

Ela revela preocupações legítimas com os efeitos sociais da economia.

Ao mesmo tempo, seria importante que essas preocupações não impedissem o estudo de tecnologias capazes de modificar formas de organização econômica.

A esquerda possui uma tradição de reflexão sobre trabalho, propriedade, participação coletiva e distribuição de poder.

Essas questões continuam presentes na economia digital, embora assumam novas características.

Estudar blockchain não exige abandonar o compromisso com políticas públicas. Conhecer Bitcoin não significa rejeitar o papel do Estado. Investigar organizações descentralizadas não implica considerar ultrapassadas as instituições democráticas.

Também não é necessário transformar cada inovação em uma promessa de transformação social.

A maturidade política está na capacidade de distinguir possibilidades reais de discursos comerciais, reconhecer limites e formular perguntas próprias.

Uma comunidade interessada em aproximar esquerda e cripto pode contribuir justamente nesse ponto.

Não como espaço destinado a convencer todas as pessoas de que devem investir em ativos digitais, mas como ambiente de estudo, debate e produção de conhecimento.

Um lugar em que seja possível conversar sobre cooperativismo e contratos inteligentes, soberania monetária e stablecoins, privacidade e fiscalização, direitos sociais e novas infraestruturas financeiras.

Essas conversas podem reunir pessoas com posições econômicas diferentes.

A divergência não precisa impedir a construção de conhecimento.

Pelo contrário, uma discussão tecnicamente informada e politicamente plural pode ajudar a identificar problemas que passariam despercebidos em ambientes onde todos compartilham as mesmas convicções.

Há também uma responsabilidade de linguagem.

O universo cripto frequentemente utiliza expressões técnicas que dificultam a participação de quem está começando.

Carteiras, protocolos, contratos inteligentes, liquidez, governança e tokenização são conceitos que exigem explicação.

A democratização do conhecimento não acontece quando a linguagem se torna um instrumento de distinção entre especialistas e iniciantes.

Acontece quando assuntos complexos podem ser compreendidos sem perder precisão.

Para uma tradição política preocupada com educação e participação popular, essa dimensão merece atenção especial.

A discussão sobre tecnologia não deveria ficar restrita àqueles que já possuem formação técnica ou recursos financeiros para experimentar seus produtos.

Ela precisa ser acessível também a trabalhadores, estudantes, professores, pesquisadores, pequenos empreendedores e pessoas que simplesmente desejam compreender as mudanças econômicas ao seu redor.

Uma aproximação que não exige concordância

A relação entre esquerda e criptomoedas não pode ser resumida a uma identidade de princípios.

Existem diferenças importantes sobre o papel do Estado, a natureza da moeda, a propriedade privada, a distribuição de riqueza e os mecanismos de organização econômica.

Essas diferenças não desaparecem quando uma tecnologia utiliza código aberto ou permite transações sem intermediários.

Mas também existem questões compartilhadas.

  • A concentração de poder preocupa diferentes tradições progressistas e aparece como problema relevante no estudo das redes digitais.
  • O cooperativismo oferece experiências históricas de governança coletiva que podem dialogar com novas ferramentas de coordenação.
  • A defesa do conhecimento aberto encontra possibilidades de expressão em projetos de software livre.
  • A busca por inclusão financeira pode orientar pesquisas sobre pagamentos e serviços digitais.
  • A proteção de direitos individuais contribui para discutir privacidade, autocustódia e limites da fiscalização.
  • E a preocupação com a sustentabilidade oferece critérios para avaliar os custos ambientais das infraestruturas tecnológicas.

Nenhuma dessas aproximações transforma automaticamente as criptomoedas em instrumentos progressistas.

Seu significado depende das condições de utilização e dos interesses envolvidos.

A própria história das tecnologias demonstra que ferramentas semelhantes podem servir a finalidades muito diferentes.

Por isso, talvez o aspecto mais relevante dessa conversa não esteja em encontrar uma identidade ideológica para o Bitcoin.

Está em reconhecer que o debate sobre tecnologias descentralizadas envolve questões econômicas e sociais que a esquerda conhece há muito tempo.

Quem controla os recursos? Quem participa das decisões? Como se distribuem os benefícios? Quais direitos precisam ser protegidos? Que formas de organização coletiva são possíveis?

Essas perguntas antecedem a criação das criptomoedas.

Continuarão relevantes independentemente do futuro de qualquer ativo digital.

O que mudou foi o ambiente em que precisam ser formuladas.

A economia digital introduziu novas infraestruturas, novos intermediários e novas possibilidades de coordenação. Algumas podem ampliar alternativas econômicas. Outras podem reproduzir ou aprofundar relações de dependência.

Compreender essa diferença exige pesquisa, debate público e disposição para enfrentar questões que não possuem respostas simples.

A esquerda não precisa aceitar as premissas de todos os movimentos associados às criptomoedas para participar dessa investigação.

Tampouco precisa considerar que uma tecnologia se torna incompatível com seus valores apenas porque determinados grupos políticos passaram a defendê-la.

O pensamento crítico não deveria funcionar por associação.

Ele exige examinar estruturas, consequências e relações de poder.

É nesse terreno que as aproximações entre esquerda e cripto podem ser estudadas com seriedade.

Não como uma tentativa de conciliar artificialmente concepções econômicas distintas, mas como um esforço para compreender de que maneira novas ferramentas podem servir, ou deixar de servir, a objetivos sociais concretos.

A tecnologia não substitui a política. E a política não deveria dispensar o conhecimento da tecnologia.

Entre essas duas dimensões existe um espaço de investigação que merece ser ocupado por pesquisadores, instituições, movimentos sociais e cidadãos com diferentes visões de mundo.

O futuro das infraestruturas digitais continuará sendo construído por decisões técnicas, econômicas e institucionais.

Quanto mais pessoas compreenderem essas decisões, maiores serão as possibilidades de submetê-las ao debate público.

A tecnologia não pertence a uma ideologia. Seus usos, seus limites e suas consequências sociais são assuntos de interesse coletivo.

Referências

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