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Sociedade ·

DAOs e a velha ideia de cooperativa

Organizações autônomas descentralizadas reinventam o cooperativismo ou apenas mudam seu vocabulário?

Por Colab · 8 min de leitura

Colagem: assembleia de cooperativa com mãos erguidas ligadas por uma linha vermelha; sacos de grãos e um quadro de votos.
Colagem: assembleia de cooperativa com mãos erguidas ligadas por uma linha vermelha; sacos de grãos e um quadro de votos.

Muito antes de blockchain, tokens de governança e contratos inteligentes, trabalhadores já tentavam responder a uma pergunta que continua surpreendentemente atual: é possível organizar uma atividade econômica sem entregar todo o poder a quem fornece o capital?

O cooperativismo nasceu de experiências concretas desse tipo.

Dois séculos depois, parte do universo cripto apresenta uma proposta aparentemente nova. São as chamadas organizações autônomas descentralizadas, as DAOs: comunidades que utilizam blockchain, tokens, contratos inteligentes e mecanismos digitais de votação para coordenar recursos e tomar decisões coletivamente.

O vocabulário é novo.

A pergunta política, nem tanto.

Quando uma DAO promete substituir estruturas empresariais hierárquicas por propriedade distribuída e decisões coletivas, ela entra em um debate que precede a própria internet.

Por isso, talvez seja mais interessante perguntar não se as DAOs substituirão as cooperativas, mas o que duas tradições separadas por quase dois séculos podem aprender uma com a outra.

Uma ideia antiga: quem participa também decide

As primeiras experiências cooperativas modernas surgiram no contexto da industrialização europeia do século XIX.

Seu princípio fundamental era relativamente simples: uma organização econômica não precisava necessariamente pertencer a investidores externos. Consumidores, produtores ou trabalhadores poderiam ser simultaneamente participantes e proprietários.

A tradição cooperativista desenvolveu princípios próprios de governança. Entre eles estão participação econômica dos membros, autonomia, educação cooperativa e controle democrático.

É importante observar uma diferença fundamental em relação às sociedades de capital.

Em uma empresa convencional, a influência tende a acompanhar a propriedade econômica.

Quem possui mais ações normalmente possui mais votos.

No modelo cooperativo clássico, a lógica pode ser diferente: uma pessoa, um voto.

Isso não elimina disputas internas, problemas administrativos ou desigualdades informais. Cooperativas são organizações humanas e enfrentam os mesmos desafios de participação, eficiência e representação encontrados em outras instituições.

Mas introduzem uma ideia poderosa:

capital e poder político dentro de uma organização não precisam ser exatamente a mesma coisa.

A promessa das DAOs

As DAOs surgem de outro contexto histórico.

Em vez de fábricas e associações locais, seu ambiente natural são comunidades digitais distribuídas geograficamente.

Suas regras podem ser parcialmente executadas por contratos inteligentes. Tesourarias podem ser registradas em blockchain. Propostas podem ser apresentadas publicamente e decisões podem ser submetidas à votação dos participantes.

Isso cria características interessantes.

Pessoas que nunca estiveram no mesmo país conseguem administrar recursos conjuntamente.

Transações da organização podem ser auditadas diretamente em uma blockchain pública.

Regras podem ser automatizadas.

Decisões podem ser registradas de maneira verificável.

E uma organização pode funcionar sem reproduzir exatamente a estrutura tradicional de diretoria, conselho e acionistas.

Pesquisadores que estudam DAOs têm observado justamente esse potencial de redução de certos custos de coordenação e informação.

Mas existe uma distância considerável entre descentralizar uma infraestrutura e democratizar uma organização.

Um token, um voto?

Aqui aparece talvez a diferença mais importante entre parte das DAOs e a tradição cooperativa.

Muitas DAOs utilizam modelos nos quais o poder de voto está relacionado à quantidade de tokens que uma pessoa controla.

Quanto mais tokens, maior a influência.

Do ponto de vista técnico, trata-se de uma forma simples de organizar governança.

Do ponto de vista político, o resultado merece atenção.

Se 1% dos participantes possui uma parcela muito elevada dos tokens, uma organização pode utilizar blockchain, votação digital e contratos inteligentes e continuar apresentando forte concentração de poder.

Descentralização tecnológica, portanto, não garante democracia econômica.

É possível construir uma organização sem presidente e ainda assim criar uma pequena elite capaz de determinar grande parte das decisões.

O problema não é exclusivo das DAOs.

Democracias representativas, empresas, associações e até cooperativas enfrentam dificuldades semelhantes: baixa participação, assimetrias de informação, formação de grupos dominantes e concentração informal de influência.

A tecnologia não inventou esse problema.

Também não o resolveu.

O retorno de uma pergunta clássica

É justamente nesse ponto que pesquisadores começaram a aproximar DAOs e cooperativismo.

Kelsie Nabben e outros pesquisadores argumentaram que DAOs poderiam aprender com décadas de experiência acumulada pelas cooperativas em governança participativa.

Mais recentemente, Morshed Mannan e Simon Pek compararam plataformas digitais corporativas, plataformas cooperativas e plataformas organizadas como DAOs.

O trabalho, publicado em 2026 no Journal of Co-operative Organization and Management, chega a uma conclusão especialmente interessante: talvez a inovação mais promissora não esteja na substituição de um modelo pelo outro, mas em formas híbridas, as DAOs cooperativas.

A ideia merece atenção.

Blockchain poderia fornecer infraestrutura para coordenação, transparência e execução de regras.

O cooperativismo forneceria princípios institucionais construídos ao longo de quase dois séculos para lidar com participação, propriedade e distribuição de poder.

Nesse encontro, a inovação não estaria em apagar o passado.

Estaria em digitalizá-lo sem perder aquilo que ele aprendeu.

Governança não é apenas votação

Existe ainda outro ensinamento importante da experiência cooperativa.

Democracia organizacional não consiste apenas em colocar decisões em votação.

Uma comunidade em que poucas pessoas compreendem as propostas e milhares simplesmente clicam “sim” ou “não” pode possuir votação sem possuir verdadeira participação.

Cooperativas historicamente atribuíram importância à formação de seus membros justamente porque participação exige conhecimento.

Esse princípio reaparece no debate sobre DAOs.

A pesquisadora Alyce Jean Thomas argumenta que educação deveria ocupar posição relevante também nas organizações cooperativas baseadas em DAO.

A questão parece secundária, mas não é.

Imagine uma proposta complexa envolvendo alteração de protocolo, política monetária de um token ou utilização de milhões pertencentes à tesouraria.

Formalmente, todos podem votar.

Materialmente, quantos conseguem compreender as consequências?

A democracia não depende apenas do direito de participar.

Depende das condições necessárias para que essa participação seja significativa.

E o trabalho?

Há uma dimensão ainda mais importante para uma análise de esquerda: quem captura o valor produzido?

Grande parte da economia digital contemporânea funciona por meio de plataformas.

Motoristas, entregadores, produtores de conteúdo, programadores e outros trabalhadores utilizam infraestruturas que pertencem a empresas privadas.

A plataforma conecta pessoas, organiza transações e estabelece regras.

Mas a propriedade permanece concentrada.

O cooperativismo de plataforma surgiu justamente como resposta a esse modelo: e se os próprios trabalhadores fossem também proprietários da infraestrutura digital?

As DAOs acrescentam uma nova possibilidade técnica a essa discussão.

Uma plataforma poderia distribuir governança e parte da propriedade entre participantes utilizando blockchain.

Mas novamente tudo depende do desenho institucional.

Se trabalhadores recebem pequena quantidade de tokens enquanto investidores concentram a maioria, mudou-se a tecnologia, não necessariamente a relação econômica.

A pergunta central continua sendo antiga:

quem trabalha, quem possui e quem decide?

Código não elimina instituições

Existe certo fascínio tecnológico pela ideia de substituir confiança por código.

Ela possui fundamento: contratos inteligentes conseguem automatizar compromissos que anteriormente dependeriam de intermediários.

Mas sociedades são mais complicadas que contratos.

Existem situações imprevistas.

Existem conflitos.

Existem erros.

Existem mudanças de circunstância.

Existe poder informal.

Pesquisas recentes sobre a natureza institucional das DAOs mostram justamente que sua sobrevivência depende da capacidade de adaptação e cooperação, não apenas da automação.

O código pode executar uma regra.

Ele não decide sozinho se a regra continua justa.

Essa continuará sendo uma tarefa política.

Uma tecnologia à procura de instituições

Talvez seja cedo demais para saber se DAOs se tornarão uma forma organizacional duradoura ou permanecerão concentradas em determinados nichos da economia digital.

Mas o experimento merece atenção.

Há algo politicamente interessante na tentativa de construir organizações globais cuja tesouraria pode ser auditada publicamente, cujas decisões podem ser registradas de maneira verificável e cujos participantes podem coordenar recursos sem necessariamente criar uma empresa convencional.

Ao mesmo tempo, seria ingenuidade imaginar que blockchain elimina os problemas históricos das organizações humanas.

Concentração de riqueza continua produzindo concentração de influência.

Participação continua exigindo tempo e conhecimento.

Conflitos continuam precisando de mecanismos de resolução.

E propriedade continua sendo uma questão política.

Talvez por isso o encontro entre DAOs e cooperativismo seja mais interessante do que a tentativa de apresentar um como substituto do outro.

As DAOs podem oferecer novas ferramentas ao cooperativismo.

O cooperativismo pode oferecer às DAOs algo que nenhum protocolo consegue gerar sozinho:

memória institucional.

Depois de quase duzentos anos, a tecnologia mudou profundamente.

A pergunta permanece familiar.

Quem participa da criação da riqueza também deveria participar das decisões sobre ela?

A blockchain não responde.

Mas pode se tornar uma das ferramentas usadas para construir a resposta.

Referências

  1. 01MANNAN, Morshed; PEK, Simon. Corporate Platforms to Cooperative DAOs: Understanding the potential and problems of a plurality of digital labor platform archetypes. Journal of Co-operative Organization and Management, v. 14, n. 1, 2026.
  2. 02NABBEN, Kelsie; PUSPASARI, Novita; KELLEHER, Megan; SANJAY, Sadhana. Grounding Decentralised Technologies in Cooperative Principles: What Can Decentralised Autonomous Organisations (DAOs) and Platform Cooperatives Learn from Each Other? 2021.
  3. 03THOMAS, Alyce Jean. DAOs, cooperatives and the educational principle. Law, Ethics & Technology, v. 1, n. 1, 2024.
  4. 04SANTANA, Carlos; ALBAREDA, Laura. Blockchain and the emergence of Decentralized Autonomous Organizations (DAOs): An integrative model and research agenda. Technological Forecasting and Social Change, v. 182, 2022. Na Biblioteca
  5. 05GHIRLANDA, Pietro; KIROV, Vassil. An alternative organizational model for a more democratic and equitable digital economy: A systematic literature review on platform cooperativism. Annals of Public and Cooperative Economics, v. 95, n. 4, 2024. Na Biblioteca
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