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Tecnologia ·

Pix, blockchain e inclusão financeira

O que o sucesso do Pix ensina sobre infraestrutura pública digital, e onde redes abertas podem somar.

Por Clube do Livro · 8 min de leitura

Colagem: um aqueduto de pedra liga dois morros com casas populares; uma linha vermelha corre sobre ele.
Colagem: um aqueduto de pedra liga dois morros com casas populares; uma linha vermelha corre sobre ele.

Talvez uma das lições mais importantes do debate sobre tecnologia financeira esteja acontecendo no Brasil, e não começou com uma criptomoeda.

Começou com o Pix.

Criado pelo Banco Central e lançado em 2020, o sistema modificou rapidamente a maneira como brasileiros transferem dinheiro. Seu significado, entretanto, ultrapassa a conveniência de enviar recursos em poucos segundos.

O Pix tornou-se um caso relevante para uma discussão internacional: infraestrutura pública e inovação privada não precisam ser adversárias.

Dados apresentados pelo Banco Central no Relatório de Cidadania Financeira de 2025 ajudam a dimensionar o fenômeno. Em dezembro de 2023, 74% dos adultos inscritos no Cadastro Único analisados haviam registrado ao menos uma chave Pix e 72% tinham realizado pelo menos um pagamento por essa modalidade durante o ano.

É um dado particularmente importante porque mede adoção entre pessoas de baixa renda.

A infraestrutura invisível

Para o usuário, o Pix parece simples.

Uma chave, alguns segundos e o dinheiro chegou.

Mas essa simplicidade depende de decisões institucionais.

O Estado criou regras e infraestrutura. Instituições financeiras desenvolveram produtos sobre ela. Empresas incorporaram o sistema aos seus serviços. Milhões de cidadãos decidiram utilizá-lo.

Esse arranjo desmonta uma falsa dicotomia recorrente no debate tecnológico: ou o Estado inova, ou o mercado inova.

O Pix mostra uma terceira possibilidade.

O poder público pode construir infraestrutura básica interoperável e permitir que agentes privados disputem serviços e experiências sobre ela.

E onde entra blockchain?

Aqui é preciso evitar exageros.

O sucesso do Pix não prova que blockchain seja desnecessária.

Também não prova que tudo deveria funcionar como blockchain.

São tecnologias com arquiteturas e objetivos diferentes.

Para pagamentos domésticos denominados em reais, o Pix resolveu problemas que muitas propostas baseadas em blockchain prometiam resolver: disponibilidade contínua, velocidade e baixo custo para o usuário.

Seria intelectualmente estranho ignorar isso.

Mas redes públicas oferecem propriedades distintas.

Elas permitem a existência e transferência de ativos digitais nativos sem que cada participante precise manter relação direta com uma única instituição central. Também possibilitam programabilidade, liquidação de determinados ativos digitais e interação entre aplicações construídas sobre protocolos compartilhados.

A pergunta produtiva, portanto, não é “Pix ou blockchain?”.

É qual infraestrutura resolve melhor cada problema?

Inclusão é mais que abrir uma carteira

Há outro cuidado necessário.

No universo tecnológico, inclusão financeira às vezes é medida pelo número de pessoas capazes de abrir uma conta ou instalar uma carteira digital.

Isso é insuficiente.

Uma pessoa financeiramente incluída precisa conseguir utilizar serviços de forma segura, compreender riscos básicos e ter condições reais de participar da economia.

Uma carteira blockchain não produz automaticamente inclusão.

Se o usuário precisa pagar taxas imprevisíveis, não compreende custódia, está exposto a golpes ou precisa converter seus recursos por meio de intermediários caros, o acesso técnico existe, mas a inclusão econômica pode continuar limitada.

O mesmo raciocínio vale para serviços financeiros tradicionais.

Acesso é apenas a primeira camada.

Infraestrutura como política pública

O caso brasileiro sugere uma discussão particularmente interessante para uma esquerda preocupada com inovação.

Nem toda infraestrutura digital precisa ser propriedade de uma grande empresa.

E nem toda inovação precisa ser executada diretamente pelo Estado.

Pode existir uma camada pública, aberta a diferentes participantes, sobre a qual empresas, cooperativas e desenvolvedores criem serviços.

Em alguns contextos, protocolos abertos podem acrescentar outra dimensão a esse ecossistema.

Isso exige abandonar duas fantasias simétricas.

A primeira é imaginar que o Estado sempre será tecnologicamente incapaz.

O Pix demonstra o contrário.

A segunda é imaginar que sistemas públicos conseguem antecipar todas as formas futuras de inovação.

A história da internet e do software aberto também demonstra o contrário.

Somar, não substituir

O futuro financeiro brasileiro pode não exigir uma escolha entre infraestrutura pública e redes abertas.

Talvez a questão seja como combinar suas melhores características.

Do lado público: universalidade, estabilidade, escala e responsabilidade institucional.

Do lado dos protocolos abertos: interoperabilidade, experimentação, programabilidade e novas formas de propriedade digital.

Nem todas as combinações funcionarão.

Algumas sequer serão desejáveis.

Mas existe um princípio que vale preservar: tecnologia financeira deveria ser julgada menos pela narrativa que a acompanha e mais pelos problemas concretos que consegue resolver.

O Pix mostrou que uma infraestrutura bem desenhada pode alterar hábitos econômicos de milhões de pessoas.

Blockchain ainda precisa demonstrar, caso a caso, onde consegue produzir ganhos sociais comparáveis.

Esse não é um argumento contra ela.

É o padrão de exigência que qualquer tecnologia relevante deveria enfrentar.

Referências

  1. 01BANCO CENTRAL DO BRASIL. Relatório de Cidadania Financeira 2025. Brasília, 2025. Na Biblioteca
  2. 02BANK FOR INTERNATIONAL SETTLEMENTS. The next-generation monetary and financial system. Annual Economic Report 2025. Na Biblioteca
  3. 03KORHONEN, Outi; RANTALA, Juho. Blockchain Governance Challenges: Beyond Libertarianism. AJIL Unbound, v. 115, 2021. Na Biblioteca
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